Morreu Jorge Palma, aos 76 anos
O cantor e compositor morreu na noite de segunda-feira, vítima de paragem cardiorrespiratória, segundo a família e a agência. Deixa mais de meio século de canções e o Presidente da República, que o despediu como um dos grandes poetas da música portuguesa.
Jorge Palma morreu na noite de segunda-feira, aos 76 anos. A família e a agência do músico confirmaram a morte em comunicado, atribuída a paragem cardiorrespiratória.
Fica uma carreira de mais de meio século e um cancioneiro que atravessou gerações sem precisar de ser explicado a ninguém. “Encosta-te a Mim”, “Deixa-me Rir”, “Frágil”, “Bairro do Amor”, “Dá-me Lume”, “A Gente Vai Continuar” — são canções que quase toda a gente em Portugal sabe cantar até ao fim, mesmo quem nunca comprou um disco dele.
Um percurso que nunca coube numa só gaveta
Palma foi pianista, guitarrista, harmonicista e letrista, e passou décadas a recusar a arrumação fácil. Tocou em salas cheias e em bares quase vazios, gravou com quem lhe apetecia, desapareceu e voltou. O talento nunca esteve em causa; a regularidade, essa, foi sempre assunto dele.
O reconhecimento institucional chegou tarde e chegou várias vezes. Ganhou o Prémio José Afonso em 2002, com o álbum homónimo, e em 2012 foi o primeiro a receber o Prémio Pedro Osório, da Sociedade Portuguesa de Autores, por “Com Todo o Respeito”. Em abril deste ano subiu ao palco do Coliseu dos Recreios para receber o Prémio Carreira nos PLAY — Prémios da Música Portuguesa.
O disco que fechou a discografia chama-se “VIDA”. Saiu numa edição especial que incluía o fac-símile do primeiro rascunho da canção que dá nome ao álbum, escrito à mão pelo próprio, e nela participaram Manuela Azevedo e Rui Reininho.
O país despediu-se em poucas horas
A nota da Presidência da República falou de “enorme tristeza e consternação” e de um país que se despede de um dos seus ícones e de um dos grandes poetas da nossa música e da nossa sensibilidade. O primeiro-ministro disse que Jorge Palma parte mas a música fica, nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações.
Entre músicos, as reações chegaram ao longo da noite e da manhã, muitas delas a citar os próprios versos dele. É o que costuma acontecer com autores cujas frases já não pertencem inteiramente a quem as escreveu.
Em anos recentes a música portuguesa tem andado a discutir onde é que as canções vivem — o Salvador Sobral chegou a retirar os discos do Spotify durante sete meses antes de os repor. No caso de Palma, a resposta sempre foi mais simples do que qualquer plataforma: as canções vivem onde alguém as canta.
Tinha 76 anos. O site oficial continua de pé, com a caixa do “VIDA” em destaque, como se nada tivesse acontecido.
Por Lucy Bennett
Imagem: Jorge Palma