Porque é que Espanha travou os centros de dados? Já tinha dado o triplo da rede que previa para 2030
O projeto de real decreto espanhol exige que 80% do consumo de um centro de dados seja coberto hora a hora por renováveis novas. O setor fala em nove mil milhões de euros em risco e aponta Portugal como destino alternativo. O motivo está no próprio documento: Madrid já concedeu cerca de 12 GW de acesso à rede.
A versão curta que circulou esta semana é simples: Espanha apertou as regras dos centros de dados e o setor ameaça mudar-se para Portugal. A versão longa está no documento que ninguém abriu, e é bastante mais interessante.
O Ministério para a Transição Ecológica espanhol pôs em audiência pública um projeto de real decreto que impõe requisitos de sustentabilidade energética, ambiental e de soberania digital às instalações acima de 1 MW. O prazo para contributos fechou a 10 de setembro. A peça central é uma regra de correlação horária: pelo menos 80% do consumo elétrico de cada hora tem de ser coberto por produção renovável dessa mesma hora. A isso junta-se uma exigência de adicionalidade — só contam centrais renováveis cuja entrada em funcionamento não anteceda em mais de 18 meses o arranque do centro de dados, o que na prática exclui quase toda a capacidade já instalada no país.
O número que explica a pressa
O preâmbulo do decreto diz porquê. Desde o Real Decreto-ley 8/2023, o operador da rede de transporte espanhol concedeu a centros de dados mais de 6 GW de capacidade de acesso, e a distribuição concedeu, desde 2020, outros 6 GW. São cerca de 12 GW já comprometidos.
A Estratégia de Inteligência Artificial espanhola de 2024 previa 2,5 GW de capacidade de computação em 2030, o equivalente a uma procura elétrica de 3,5 a 4 GW. Ou seja: as licenças de acesso já atribuídas valem perto do triplo do que o próprio plano nacional projetava para o fim da década, e o ministério escreve preto no branco que atender a tudo isso obrigaria a gastar boa parte do investimento previsto no planeamento da rede 2025-2030 só a reforçar ligações para estes centros. O decreto não é um travão ideológico. É uma fila de espera que rebentou.
E Portugal?
A associação do setor em Espanha fala em cerca de nove mil milhões de euros de investimento planeado ou já em curso em risco, e em impactos negativos que chegariam aos 60 mil milhões. Portugal aparece na lista de destinos alternativos pelas razões habituais: eletricidade renovável barata, boas ligações de telecomunicações, posição geográfica e um quadro regulatório mais leve.
A palavra a reter é leve. A capacidade de rede em Portugal também é finita, e continua a ser disputada por muita gente ao mesmo tempo, como se viu quando a ERSE aprovou 1.600 milhões de euros para a rede de distribuição e quando o leilão de armazenamento de 1.050 MVA foi adiado por falta de condições. Receber projetos que Espanha rejeitou é uma oportunidade. Recebê-los sem decidir antes quanta rede se está disposto a dar-lhes é como Madrid chegou aqui. O texto integral do projeto e o dossiê da audiência estão no portal do ministério espanhol.
Por Oliver Grant
Imagem: Zarateman / Wikimedia Commons (CC0)