O Governo quer ensinar IA a 100 mil trabalhadores de PME. Começa em outubro, numa fábrica de moldes da Marinha Grande
O primeiro piloto arranca em outubro em Leiria, com cerca de 100 trabalhadores, e um segundo testa a IA em cinco ou seis fábricas de moldes da Marinha Grande. A meta nacional é 100 mil trabalhadores de PME, apoiada por mais de 400 milhões de euros já distribuídos pelo IFIC e outros 800 milhões reprogramados do PRR.
Portugal já tinha um plano de 400 milhões de euros para a inteligência artificial, anunciado em junho. O que faltava era uma data e um endereço. Agora tem os dois.
O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, disse ao Parlamento que o objetivo é formar 100 mil trabalhadores de pequenas e médias empresas em inteligência artificial — e que o primeiro piloto arranca já em outubro, na região de Leiria, com cerca de 100 trabalhadores de várias empresas. Um segundo piloto, mais estreito, testa a tecnologia em cinco ou seis fábricas de moldes da Marinha Grande, um dos clusters industriais mais antigos do país.
A escolha não é acidental. Como o próprio ministro admitiu, o tecido empresarial português é feito sobretudo de empresas muito pequenas — em média, três trabalhadores por empresa — que não têm equipas de informática nem orçamento para contratar consultoria em IA. Uma grande empresa treina os seus próprios quadros; uma oficina de moldes com seis pessoas não tem essa opção, a não ser que alguém lha traga.
É aí que entra o dinheiro. Mais de 400 milhões de euros já foram distribuídos através do Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade (IFIC), gerido pelo Banco Português de Fomento no âmbito do PRR, e o Governo reprogramou mais 800 milhões do PRR especificamente para a adoção de IA nas empresas. Vistos em conjunto, os números confirmam que o plano de junho — pensado para gigafábricas e supercomputação — também tinha sempre uma componente de formação, só que sem data marcada.
Se o piloto de Leiria correr como previsto, a ideia é alargá-lo “do Minho ao Algarve” depois de uma primeira avaliação, sem uma data fixa para o fim da expansão nacional. Para uma economia de micro e pequenas empresas, o teste real não vai ser o discurso no Parlamento — vai ser se uma fábrica de moldes da Marinha Grande, dentro de poucas semanas, consegue mesmo pôr a inteligência artificial a fazer alguma coisa que valha o tempo de quem lá trabalha. Isso só quatro ou seis meses depois é que se vai poder confirmar, quando o primeiro grupo de PME sair do piloto e alguém contar quantas ainda usam a ferramenta que lhes ensinaram.
Vale notar que a Marinha Grande soma agora dois planos nacionais à espera de resultados práticos: o das candidaturas a fundos de inovação produtiva que já corriam este ano, e agora este piloto de IA. Nenhum dos dois tem, para já, um número público de empresas moldistas apoiadas.
Por Oliver Grant
Imagem ilustrativa · Foto: ThisIsEngineering / Pexels