Os centros de saúde já fizeram 1.028 consultas por gripe este setembro. Em dez anos, nunca foram tantas
Contámos, dia a dia, os registos que o SNS publica desde 2016. Entre 1 e 18 de setembro houve 1.028 consultas por gripe nos cuidados de saúde primários, mais 12% do que no ano passado e o valor mais alto da série. A época da gripe, essa, só costuma arrancar em novembro.
Entre 1 e 18 de setembro, os centros de saúde portugueses fizeram 1.028 consultas por gripe. É o valor mais alto para esta janela em dez setembros de registo diário: foram 918 no ano passado, 727 em 2024, 700 em 2023 e apenas 519 em 2019, no último outono antes da pandemia. Quase o dobro.
Ninguém publicou este número porque ninguém o calculou. Os dados estão abertos há anos, atualizados quase todos os dias, e ficam à espera de que alguém os some.
Como fizemos a conta
Fomos ao conjunto de dados dos atendimentos por gripe nos cuidados de saúde primários, que o portal SNS Transparência publica com o número de consultas por gripe registadas em cada uma das cinco regiões de saúde, dia a dia. A série arranca a 1 de novembro de 2016 e o último dia carregado é 18 de setembro de 2026. São 18.045 linhas para 3.609 dias de calendário, cinco regiões vezes cada dia, sem uma única falha.
Somámos os cinco valores regionais de 1 a 18 de setembro, ano a ano, e alinhámos os totais. Depois repetimos a operação a partir do ficheiro CSV em vez do JSON, com um programa diferente, porque um número errado numa peça destas não tem ninguém que o corrija. As duas contas deram o mesmo.
Uma nota de vocabulário que interessa: o que está aqui contado são consultas, não pessoas. Quem for duas vezes ao centro de saúde conta duas vezes. E é gripe registada como tal pelo médico nos cuidados primários, não gripe confirmada em laboratório nem gripe que alguém tratou em casa com um chá.
A subida não é do país inteiro
Repartida por regiões, a conta muda bastante de carácter. Lisboa e Vale do Tejo passou de 258 consultas em setembro do ano passado para 372 este ano, uma subida de 44%. O Algarve subiu de 42 para 56, o Alentejo de 80 para 93. O Norte e o Centro, esses, desceram ligeiramente, de 299 para 286 e de 239 para 221.
Ou seja, o recorde nacional é sobretudo um recorde de Lisboa. Vale a pena ter isso em conta antes de transformar 1.028 numa frase sobre o país.
Há ainda um segundo movimento por baixo do primeiro. As consultas não programadas nos centros de saúde, que são o denominador natural desta conta, caíram de 411 mil para 383 mil naquelas mesmas dezoito dias. A gripe não está só a crescer em número absoluto; está a ocupar uma fatia maior de uma procura que encolheu. Em 2017 representava 0,09% das consultas não programadas de setembro. Este ano vai em 0,27%.
Setembro continua a não ser a época da gripe
Isto é o que o número não diz, e é a parte que convém não perder. Em nenhuma das dez épocas que a série cobre a média a três dias passou das 300 consultas diárias antes de 2 de novembro. O pico chega quase sempre entre meados de dezembro e o início de janeiro: 2.509 consultas num único dia a 3 de janeiro de 2024, 2.225 a 15 de dezembro de 2025. Contra isso, os 30 e tal casos diários de meados de setembro são ruído de fundo.
O que 1.028 marca é o ponto de partida, não a corrida. Um setembro mais carregado não garante um inverno pior, e qualquer pessoa que lhe diga o contrário está a adivinhar.
A campanha de vacinação sazonal arranca a 30 de setembro, com a gripe gratuita alargada às crianças dos 2 aos 4 anos. Entre essa data e a primeira semana em que a curva costuma virar para cima vão seis a oito semanas, que é exatamente o tempo de que uma vacina precisa para valer alguma coisa. O calendário, pelo menos, está do lado certo.
Continuaremos a somar isto de mês a mês, como já tínhamos feito com seis anos de teleconsultas hospitalares. Um número só é nosso enquanto o formos buscar outra vez.
Por Marta Carneiro
Gráfico: Tugadaily, sobre dados do SNS Transparência