Metade das visitas do Observador chegava pelo Google. Esse tráfego está a encolher
Na Lisbon AI Week, o diretor-geral do Observador, Rudolf Gruner, contou que cerca de metade das visitas do jornal vinha de ferramentas da Google e que essa fatia está a cair com as respostas diretas da IA. A homepage, que valia mais de 60% das páginas vistas em 2014, está hoje abaixo dos 20%.
A Lisbon AI Week está a decorrer em Lisboa até domingo, com dezenas de eventos espalhados pela cidade, de hackathons a debates sobre criatividade, saúde e segurança. Num deles, dedicado ao impacto da inteligência artificial nos media, um diretor de jornal fez aquilo que os painéis sobre IA raramente fazem: pôs os números da própria casa em cima da mesa.
Metade das visitas vinha da Google
Rudolf Gruner, diretor-geral do Observador, contou que cerca de metade das visitas do jornal chegava através de ferramentas da Google (a pesquisa, o Discover e o Google News). Esse tráfego está agora a diminuir. A explicação que deu tem nome no setor, “zero click”: quem pesquisa encontra a resposta na própria página de resultados, ou num assistente de IA, e já não precisa de clicar para chegar à fonte.
Não deu uma percentagem para a queda. Deu outra, que conta a mesma história por outro ângulo: quando o Observador nasceu, em 2014, mais de 60% das páginas vistas aconteciam na homepage. Hoje ficam abaixo dos 20%. O leitor já não entra pela porta da frente e percorre a hierarquia escolhida pela redação. Chega por notificações, pesquisas e redes sociais, peça a peça.
Gruner comparou a IA a “um TGV” que o jornal está a tentar apanhar a tempo, e acrescentou uma conta que ninguém sabe ainda quem vai pagar: os cinco ou seis maiores grupos de IA deverão investir cerca de 600 mil milhões de dólares em 2026, quando a receita, disse, é “largamente insuficiente” para cobrir esse nível de gasto.
E os mais novos?
Ao lado dele estava Pedro Morais Leitão, administrador-delegado da Media Capital, dona da TVI e da CNN Portugal. Foi dele a frase mais desconfortável do debate: uma pessoa com pouca experiência, disse, acaba por ter pouco a acrescentar a um trabalho que a IA já faz em boa parte. Ressalvou que isso não quer dizer que os juniores fiquem de fora, mas que as funções de entrada vão ter de ser “totalmente reconvertidas”.
No Observador, essa mudança já chegou à equipa técnica, onde Gruner diz que quase já não há programadores juniores. Na redação ainda não: o jornal continua a contratar jovens para a rádio e para escrever.
A resposta do Observador à perda de cliques é apostar mais nas assinaturas e em conteúdo exclusivo e de profundidade, num momento em que os assistentes de IA já disputam entre si a atenção de quem pesquisa. O programa completo, com a maioria dos eventos de entrada gratuita, está no site da Lisbon AI Week, que decorre até 27 de setembro.
Por Oliver Grant
Imagem: Lisbon AI Week (material de imprensa oficial)