Já se sabe que língua gestual o Pixel 11 percebe (e não é a portuguesa)
A função de gestos para texto que a Google pôs no centro da apresentação lê língua gestual americana e escreve inglês. Um mês depois da estreia portuguesa, a lista de línguas das restantes funções de Gemini continua por publicar.
A pergunta ficou no ar em agosto, quando o Pixel 11 chegou às lojas portuguesas. A inteligência artificial que ocupa toda a apresentação fala português? Para uma das funções há finalmente resposta, e é mais estreita do que o anúncio deixava supor.
A tradução de gestos para texto, apresentada como um dos grandes trunfos de acessibilidade da gama, lê língua gestual americana e escreve inglês. Não é uma limitação temporária de mercado à espera de um interruptor. É o desenho da coisa: a Google explica que a função assenta num modelo de tradução de língua gestual da DeepMind e que traduz ASL para frases em inglês escrito, em tempo real, analisando a forma das mãos, a expressão facial e o movimento do corpo. Serve para sinalização com uma mão e com as duas. Acrescenta-se à barra do teclado, aponta-se a câmara frontal e o texto aparece no ecrã exterior.
Para quem usa Língua Gestual Portuguesa, nada disto serve.
Porque é que a distinção importa cá
A LGP não é um sotaque da americana nem uma tradução dela. É uma língua com gramática própria, e está inscrita na Constituição desde a revisão de 1997 como expressão cultural e como instrumento de acesso à educação e à igualdade de oportunidades. Um telefone vendido em Portugal que promete traduzir gestos e só entende os de outro país não é um telefone com uma função por activar. É um telefone com uma função que não foi pensada para aqui.
Vale dizer o óbvio: ninguém prometeu LGP. O problema é o inverso, e é mais subtil. A comunicação de lançamento fala de tradução de língua gestual sem adjectivo, e o adjectivo só aparece na página que quase ninguém abre.
E o resto do Gemini?
Quando escrevemos sobre os preços portugueses da gama, o ponto era exactamente este: quase tudo o que a Google anuncia traz uma nota de rodapé a dizer países e línguas seleccionados, e a lista nunca apareceu. Um mês depois, continua a não aparecer.
A página de apoio da Google sobre tradução no Pixel também não a publica. Publica outra coisa, útil à mesma, que é o mapa do hardware. A tradução de texto e de aplicações existe desde o Pixel 6, a de chamadas desde o Pixel 10, e a tradução de vídeos, podcasts e redes sociais só corre no Pixel 11, apenas nalgumas aplicações e sem tocar em música. Em que línguas, caso a caso, continua a ser coisa para descobrir no menu de definições depois de pagar.
Nada disto faz de um bom telefone um mau telefone. É só a distância entre o que o palco promete e o que aterra cá — e é melhor medi-la antes dos mil euros do que depois.
Por Oliver Grant
Imagem: Google