Lisboa cancelou 40% do alojamento local. As rendas subiram na mesma
A câmara fechou 6.765 registos em fevereiro e a cidade passou de perto de 20 mil para 11.779 alojamentos ativos. No trimestre que apanha esse corte, a renda mediana de novos contratos em Lisboa subiu 8,2% e continua a mais alta do país, a 17,42 €/m2.
Durante anos, a resposta mais repetida para o preço das casas em Lisboa foi o alojamento local. Tire-se o AL do mercado, dizia o argumento, e as casas voltam ao arrendamento normal. Lisboa fez precisamente isso, em grande escala, e agora há números para ver o que aconteceu a seguir.
A câmara concluiu a 1 de fevereiro um saneamento administrativo dos registos e cancelou 6.765 licenças de alojamento local — cerca de 40% do universo da cidade. Foram sobretudo licenças fantasma, de quem nunca entregou o comprovativo do seguro de responsabilidade civil e, em muitos casos, nunca chegou a operar. Os registos ativos caíram de perto de 20 mil para 11.779. Lisboa foi o primeiro município do país a fechar a limpeza.
O que a renda fez a seguir
Nada do que se esperava. Segundo os dados do INE para o 1.º trimestre de 2026, o trimestre que apanha o corte, a renda mediana dos novos contratos em Lisboa fixou-se em 17,42 €/m2 — a mais alta de todos os 24 municípios com mais de 100 mil habitantes. E subiu 8,2% em relação ao ano anterior.
Vale a pena olhar para esse 8,2% com algum cuidado, porque é o único número do conjunto que dá algum conforto à tese: ficou abaixo da subida nacional, que foi de 9,1%. Lisboa subiu menos do que o país. Mas subiu.
No resto do território o quadro é o mesmo em todo o lado: a renda mediana aumentou em todas as sub-regiões do continente e das ilhas, sem exceção. A Grande Lisboa lidera com 14,38 €/m2, à frente da Madeira, da Península de Setúbal, do Algarve e da Área Metropolitana do Porto. A mediana nacional está nos 9,46 €/m2, sobre 39.395 novos contratos.
Porque é que tirar casas ao AL não chegou
A explicação mais simples é também a menos confortável: 6.765 registos não são 6.765 casas a entrar no arrendamento. Boa parte era papel — licenças inativas que já não tinham hóspedes nenhuns e, portanto, também não tinham uma casa fechada por trás. Cancelar um registo que ninguém usava não devolve nada ao mercado.
O presidente da ALEP, a associação do setor, tem feito notar que não há uma única zona da cidade onde o preço tenha descido, nem mesmo nas áreas de contenção onde a pressão sobre o AL foi maior. É uma parte interessada a dizê-lo, mas os dados do INE não o desmentem.
Fica de pé a leitura que o setor da habitação repete há anos e que este episódio reforça: o problema em Lisboa é de oferta total, não de repartição entre turistas e residentes. Já tínhamos escrito que há cada vez menos casas para arrendar em Portugal, e a experiência de Lisboa encaixa nisso — mexeu-se numa fatia sem mexer no tamanho do bolo.
Nada disto torna a regulação do AL inútil. Tem efeitos noutras coisas — ruído, composição dos bairros, prédios inteiros entregues a caixas de chaves. O que estes números dizem é uma coisa mais estreita e mais útil: não a comprem como política de preços, porque como política de preços não está a funcionar. A discussão europeia que se segue, aliás, já não trata só do alojamento local.
Quando dá para confirmar isto
A 29 de setembro. É a data do próximo destaque do INE, com os dados do 2.º trimestre — o primeiro trimestre inteiro depois de os 6.765 registos terem desaparecido. Se a tese do alojamento local estiver certa nalguma parte, é aí que teria de aparecer.
Gráfico: Tugadaily · Dados: INE